O que é a obesidade, quais as suas consequências e o que podemos fazer por si !

A obesidade e suas consequências

A obesidade e as doenças metabólicas que a ela se associam (diabetes tipo 2, hipertensão arterial, dislipidemia e síndrome da apneia do sono) provocam a redução da esperança de vida e uma degradação rápida da qualidade de vida pois no seu conjunto origina sofrimento, psicológico e social.

Nas sociedades desenvolvidas a obesidade e o excesso de peso atingem já cerca de 2 terços das populações e, na ausência de tratamentos simples satisfatórios, continua a crescer.

É, nessa medida, um dos principais problemas de Saúde Pública, com impacto económico muito marcado e a exigir medidas sociais e políticas urgentes para conter a sua contínua progressão. A prevenção é o melhor tratamento e uma política educacional alimentar, de incentivo da atividade física e de redução do “stress” civilizacional são necessárias para conter o problema.

O que é a obesidade ?

A obesidade consiste na acumulação excessiva de gordura no organismo humano.

Ter gordura no organismo é inevitável pois ela serve como garantia de melhor “chance” de sobrevivência em caso de crise alimentar.

A gordura é, assim, um órgão muito importante no nosso equilíbrio homeostático e por isso pode ser considerada uma função vital, gerida pela parte do cérebro que controla a respiração, a circulação, a termogénese, a função digestiva, o instinto reprodutor e outras.

Ter gordura em excesso (obesidade) leva a que os adipócitos comecem a produzir substâncias pró-inflamatórias que vão desencadear outros mecanismos conducentes ao aparecimento das componentes do Síndrome Metabólico (diabetes, hipertensão, dislipidemia e apneia do sono), atrás referidas e aquelas que constituem a maior causa de morte nos países desenvolvidos, as doenças cardiovasculares e cérebrovasculares.

O excesso de gordura resulta da prática de comportamentos desajustados em relação ao que a nossa natureza (o nosso metabolismo) esperaria. O Homo Sapiens de hoje tem a mesma genética do homem do Paleolítico. Por isso o nosso metabolismo está adaptado para uma alimentação típica dessa época, variada, rica em proteínas e fibras, sem excesso de hidratos de carbono simples ou gordura. 

Mas, na Sociedade atual, mudámos para uma alimentação refinada, hipercalórica, rica em hidratos de carbono simples e de absorção rápida (açúcar e farináceos), rica em gordura e pobre em fibra. 

Também o nível de atividade física é diametralmente oposto e o sedentarismo facilita imenso a instalação da obesidade. E, por último, o stress a que todos nós somos hoje sujeitos é também um fator importante no desencadear da obesidade. 

A nossa genética evolui sempre mas não se conseguiu adaptar a uma mudança tão rápida nas condições de vida do Ser Humano.

Quais são as principais doenças resultantes da obesidade ?

Entre as 236 doenças provocadas pela obesidade as principais são:

– “Síndrome metabólico” (diabetes mellitus tipo 2, Hipertensão arterial, hipercolesterolemia e/ou hipertrigliceridemia, síndrome da apneia do sono)

– Doenças resultantes de sobrecarga física: doença degenerativa osteoarticular (artroses), insuficiência venosa dos membros inferiores, incontinência urinária, síndrome do túnel cárpico, hérnias discais, doença do refluxo gastro-esofágico,…

– Doenças outras: hiperuricemia e gota, litíase vesicular, fígado gordo e cirrose, pseudotumor cerebral, infertilidade, depressão, auto-isolamento, diminuição da auto-estima, depressão.

– Cancro: o doente obeso, sobretudo o do sexo feminino, está 2,5 xs tem maior porobabilidade de ter um cancro (2,5 vezes na mulher, 1,5 no homem) . Os cancros mais frequentes na obesidade são o cancro da mama, do colo do útero, do endométrio, do ovário, do cólon e recto, do estômago, do pâncreas, entre outros..

Como se pode tratar a obesidade ?

Sendo uma doença com etiologia multifatorial com um componente genético importante pode-se dizer que não podemos curar a obesidade. Mas podemos sim controlá-la e reduzir ao mínimo as suas consequências.

Em primeiro lugar o tratamento da obesidade deve começar precocemente, nas fases iniciais da doença. O doente deve perceber que é uma doença crónica e progressiva cuja história natural é sofrer um agravamento progressivo à medida que a idade avança. Portanto, quanto mais cedo se informar e resolver tratar … melhor, menos sofrimento e desgaste vai avassalar o seu corpo, a sua psicologia, o seu status social.

O tratamento da obesidade tem características diferentes de muitos outros, ele é:

– Crónico porque se trata de uma doença crónica.

– Multidisciplinar porque aspetos nutricionais, endócrinos, psicológicos e motores exigem aconselhamento de especialistas nestes campos do saber médico.

– Evolutivo porque deve sempre começar com alterações do seu estilo de vida, ou seja, melhorar a qualidade da sua alimentação e praticar mais atividade física. 

Apenas depois de tentada e provada a ineficácia das tentativas de modificação do estilo de vidas, quando devidamente apoiadas por profissionais de saúde ligados ao tratamento da obesidade, se deve avançar para patamares seguintes no tratamento. São eles a medicação para controle da gordura, os métodos endoscópicos e a cirurgia bariátrica. Tratamentos como o “coaching”, a hipnose, a acupuntura e outros nunca demonstraram eficácia no tratamento desta doença. 

Os tratamentos endoscópicos (balão intragástrico, “endosleeve”, manga duodenal) são promissores mas ainda experimentais. A sua eficácia é superior á da medicação mas bastante inferior à da cirurgia tendo igualmente efeitos transitórios com elevadas taxas de recuperação ponderal.

A cirurgia é, consensualmente, o melhor método para um resultado significativo e tendencialmente definitivo se cumpridos os preceitos definidos pela equipa multidisciplinar que prepara o doente para a cirurgia e o acompanha, cuidadosamente, no seguimento pós-operatório por um prazo longo, nunca inferior a cinco anos.

Na nossa Unidade a taxa de sucesso é superior a 98% e a taxa de recidivas da obesidade inferior a 5%.

As técnicas cirúrgicas, quando usadas em Unidades especializadas como a nossa, são extremamente seguras com taxa de mortalidade de 0,01% e de complicações abaixo dos 5%, mais ou menos o risco de tirar um apêndice ou uma vesícula com “pedras”.

Como funciona a cirurgia ?

As operações metabólicas funcionam por meio de alterações da anatomia e fisiologia gastrointestinais que se repercutem:

            – no processamento da fome e saciedade pelo cérebro humano,

– nos órgãos de gestão energética (fígado e pâncreas), 

– no ambiente bioquímico do sangue (metabolismo dos sais biliares)

– por alteração do ambiente microbiológico no nosso tubo digestivo.

Chamamos “microbiota” ao conjunto dos microorganismos que vivem dentro do nosso tubo digestivo e são parceiros muito importantes na digestão e absorção dos nutrientes bem como na modulação da produção das hormonas do tubo digestivo (incretinas) que regulam a fome e a saciedade.

As operações mais conhecidas são, pela ordem da frequência com que são hoje praticadas:

– o “sleeve gástrico”, 

– o bypass gástrico clássico (em Y de Roux), 

– o bypass gástrico de anastomose única e as derivações bilio-pancreáticas. 

Técnicas mais modernas e com efeitos metabólicos mais intensos, dispensando os desagradáveis efeitos restritivo e disabsortivo (vómitos e diarreias) despontam no horizonte parecendo permitir melhores resultados (maior perda de peso e controle das doenças associadas) com menos complicações nutricionais a longo prazo, uma das fraquezas das técnicas mais clássicas. São elas a “bipartição do trânsito intestinal” e a “interposição ileal”.

Na nossa Unidade do HLA praticamos todas estas técnicas com ênfase especial no bypass de anastomose única, no “Long Pouch Gastric Bypass” (técnica por nós desenvolvida em 2013) e na “Bipartição do trânsito intestinal”, técnica em que somos ainda hoje pioneiros em Portugal.

Esta última técnica revela-se extremamente eficaz no controle da diabetes, tem pouca restrição (os operados comem confortavelmente), tem menos défices nutricionais e permite manter o acesso endoscópico a todo o tubo digestivo evitando zonas cegas do mesmo.

Qual o papel da equipa multidisciplinar ?

A equipa multidisciplinar tem funções importantíssimas como sejam:

– ajudar a caracterizar o doente de forma a poder estabelecer o melhor plano de tratamento possível.

– preparar o doente para o ato cirúrgico e para toda a transformação comportamental pretendida para o chamado “follow up”.

– complementar a ação médica no sentido de ajudar o doente a cumprir as regras de suplementação nutricional e o cumprimento do plano de acompanhamento, evitando o “drop out” do doente, fonte habitual de perda de eficácia do tratamento.

– acompanhar o doente no seu trajeto, incentivando, ajudando a resolver situações de maior dificuldade ou mesmo inesperadas.

A nossa equipa:

Cirurgia: Rui Ribeiro + Octávio Viveiros + Viorel Taranu + Filipa Eiró

Medicina Interna: Raquel Sousa e Pedro Braz

Anestesistas: Emanuel Almeida e Fabio Almeida

Nutrição: Carina Rossoni, Rossela Bragança, Zélia Santos e Beatriz Vieira

Psicologia: Margarida Mendes, Ana Gil

Fisioterapia: Maria Manuel Pires e Germano Ferreira

Cirurgia Plástica: Carlos Noronha

Gastroenterologia: Gilberto CoutoBariatric Manager: Diana Pereira

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